Ópera ' CRIOULO' ______________________________________________________________________________________________________

 

Música e libreto de Vasco Martins

O texto de ‘Crioulo’, escrito em língua cabo-verdiana, foi baseado nos seguintes livros:

1. Cabo Verde, ‘Nascimento e Extinção de uma Sociedade Escravocráta’, (1460-1878) de António Carreira

2. ‘Cantos de trabalho em Cabo Verde’ de Osvaldo Osório

3. ‘The Vice Roy of Ouidah’, de Bruce Chatwin

A primeira versão (no principio uma cantata), com o nome de ‘Lágrimas na Paraise’, foi composta em 1994, encomenda da Universidade de Paris VIII (França). Esta primeira versão, com 25 minutos, foi estreada nessa universidade em Março de 94, interpretada pelas vozes solistas Soli Tutti, dois percussionistas do Senegal e o próprio compositor aos sintetizadores, para assinalar a Abolição da Escravatura.

Em Junho do mesmo ano, no Palácio da Assembleia Nacional de Cabo Verde, foi interpretada a segunda versão com os mesmos músicos, tendo o compositor acrescentado outras partes.

Em 2002, para a abertura de ‘Mindelo Capital Lusófona da Cultura’ foi tocada uma terceira versão também aumentada, com a produção artística de António Tavares que então sugeriu o novo nome: ‘Crioulo’. Este espectáculo teve um largo leque de artistas: o Coro de Câmara de Lisboa, Bau, Djurumani, Paulo Maria Rodrigues, Zinha e batucadeiras de Santa Cruz, Estrelas do Fogo, batucada de Mindelo, o percussionista Tey Santos, Máximo Casadey e 11 bailarinos.

Esta nova versão foi reposta na Cidade da Praia no dia 20 Janeiro em 2003, data que assinala a memória de Amílcar Cabral.

A partir de Abril 2003, Vasco Martins optou em fazer uma quarta versão orquestrada, revista e aumentada, de modo a que esta ópera fosse definitivamente escrita e tivesse a possibilidade de ser apresentada através do mundo.

A partir de Agosto de 2007, o compositor fez ainda acréscimos na música, orquestração e no texto, optando por não desenvolver um enredo habitual, mas sim o ‘fluir’ do canto embebido na própria realidade histórica.

Dia 17 de Janeiro de 2008 Vasco Martins finalizou ‘Crioulo’.

Assim ficou estabelecida a ópera ‘Crioulo’:

Orquestração 1:

Flauta, oboé, contra-fagote, trompa, trompete, marimba, percussão, quarteto de cordas, soprano solista e coro misto a quatro vozes.

 

A morna “Ser”:

Violino tradicional de Cabo Verde, dois violões, um cavaquinho, duas vozes cabo-verdianas e um tenor.

Na orquestração 2 é aumentado o quarteto de cordas para orquestra de cordas (substituindo o contrafagote pelos contrabaixos).

A ópera é dividida em três actos:

O primeiro acto: génese, memória, travessia.

O segundo acto: a vida nas ilhas sob escravatura, fuga, sementêra.

O terceiro acto: a caminhada para a liberdade sendo a morna ‘Ser’ e o Final a assunção do Crioulo.

A Soprano simboliza a mãe terra, a mãe criação, a esperança, a força passiva e activa, a Lua (como cósmica simbologia feminina da ‘luz nas trevas’) e conduz o desenrolar da ópera.

O coro canta os acontecimentos e assinala o processo histórico até a libertação.

Musicalmente o compositor inspirou-se na musica Mandiga e dos Kotocos, no batuque, na coleixa, nos ritmos de tambores de sanjõn, na morna, na música ibérica peninsular (com influências da música árabe), na tabanka, na ‘valsinha’ e no ‘ambiente’ musical dentro/fora do espaço temporal, isto é, aproveitando a musica da época clássica europeia, da musica tradicional da Africa Ocidental e de Cabo Verde, da música ibérica e situando todo este universo musical no tempo actual do compositor.

Ópera ‘Crioulo’ em 3 Actos

(15 partes)

Acto 1

1- Abertura (instrumental)    4:30

2- Símbolo da Lua, a voz do destino, travessia    4:15

3- Memória: Chai chai    5:22 

4- Morte como forma de liberdade (interrogação)    5:02   

5- Fuga e sementêra    3:23

(22:53)

Acto 2

6- Intermezzo 1 (instrumental)    3:16

7- Isabel e Tilinka    7:45

8- Simão    4:17   

9- Nô tem força dês rotcha    6:43

10- Comba lê lê… Fula,Mandinga…    6:07

(28:14)

Acto 3

11- Intermezzo 2 (instrumental)    3:53

12- Companhia de Cacheu    5:05

13- Ferre em braza    3:10

14- Morna ‘Ser’    6:25

15- Final: Libertação,assunção do ‘Crioulo’    9:49

(28:36)

Duração total: 80:00

(1 hora e 20 minutos)

 

Libreto

Acto 1

1- Abertura (instrumental)

2- Símbolo da Lua, a voz do destino, travessia

Soprano:

Eh, num navio ês trazê gent nôv

U q’ê nôs agora? eh oh:

Min é voz qui ta bem dôt terra

Voz di Lua

Qui tud viagem cantá

Nôs mund.

 

E agora sim, é voz d´ôt Lua oh eh…

Um voz um tem

Nha voz é vida, mêsm assim é voz d’amor

Lua-ilha

Coro:

Oh voz :nêss mar nô bem num navio

Q’vela brônc e brumêdje

Oh tônt dia q’só bô fui luz luz

F’cá li Luz: nôs alma é livre

3- Memória:Chai chai

Coro:

Tuma cuidód

Na Golf di Benim

Pa cada um q’ta sei

Corenta ta fc’a

 

Um cavól ta valê dez escrav

E dos manta d’ Alentej

Cada hôme

 

Cha chai chai

Bombalos bombalos

Na savana

Tangomao tangomao

Aie aie aie ah

Tangomao tangomao

Oia oia oia eh

4- A morte como liberdade (interrogação)

Soprano:

Tônt hora na mei di nôt

Morrê hoje

Manhã um t livre!

Má será q’ê cert? Ah …

Que morte ê cert? Ah…

Que morrê é cabá q’tud êsse dor

Pra sempre na nha alma préz?

Ma nenhum dor ta durá ra sempr…(!)

5- Fuga e sementêra

Coro:

Iá iá côtina iá

Mi N simia’l N ka kume’l

Maman simia’l ek ka kume’l

Ki fari papai ki more ka d’ôs

Lá papai me k’sta ta kume’l

Lá papai me k’sta ta kume’l

Acto 2

6-Intermezzo 1 (instrumental)

7- Isabel e Tilinka

Soprano:

Um póne d’obra um tecê

Um dia

Ele sirvi pa compra

D’nha amor Tilinka oh

Coro (baixos e tenores):

Um póne Isabel q’cês mon tecê

Má ca podê ter liberdad

Cónde ser hôme é ter

Pêse d’un current

Oh Isabel tão longe

Bô’stá Oh

Soprano:

Livre nô ta livre sim

Má tônt fome tem

Que nôs Tilinka

Bai pa longe

Coro:

Oh lágrimas na Paraíse

É nôs sina

8- Simão

Coro:

Simão d’côr negre

Tilibunca sem mêscav

Rost redond

Oie pard

Três lonhe na cada lôd d’cara

Simão d’cor negre

Sete escróv

D’boa fide

Bem num brigue de Bissau

Nove mil reis cada um c’stá

9-Nô tem força dês rotcha

Coro:

Um navio pirata

Somá lá longe:

Alerta alerta!

Dôt vez ês levá

Nha filha codê

Nô proveitá

Pa f’gi pa rotcha

F’gi d’amargura

Num vale nô ta f’cá

Soprano:

Nêss vale escondid

Nôv vida um tem nesse ilha

Mesme sem pôde bai

Pa mar azul c’um t’oiá

D’casa

Que mede d’ser panhôd

Nha dóna era cruel tud hora

 

Estód fgide é medjôr

Q’ser vendid

Nha dóna era cruel tud hora

Li é medjôr q’sirvi pa tud vida

 

Nô t’oiá mar, nô tem r’bêra

É tud q’nô mestê pa vida ah oh:

Um vale escondid

Coro:

Mil setecentos e doze

Tiv um grande fome

Tud um pôve

Bem pa nôs lugar:

Que fazê nesse vale pirdid?

 

Pa nôs dône nô ca crê bai

Eh eh eh oh

Eh eh eh oh

Nôs história é fêt

De sofriment e dôr sempre

 

Má nô tem força dês rotcha

Eh eh eh oh

Eh eh eh oh

10- Comba lê lê... Fula, Mandinga…

Coro:

Fula Mandinga Bambará

Papel Bijagó Assolum

Balanta Jalofo Banhum

Oih-ieh-eih-oh-ah

Eih-aih-oh-eih-oh-ah-eih

Olé Comba lê lê, Samba lê lê

Acto 3

11- Intermezzo 2 (instrumental)

12- Companhia de Cacheu

Coro:

A partir d’1697

Por conta d’Companhia d’Cacheu

Um padre que piedad reconhecid

Táva dôtriná durante viagem

Tud escráv

 

Falá Deos

Que reine é esse

Q’ta pulsá

Na diferença

D’cor más escur

C’um côr más clór

Eh

13- Fêrre em braza

Coro:

Na nha peite

Tem marca de ferre

Em braza

Antes del morrê

Um cristã libertá-me:

Nha pês

Táva  sufocá-le

14 - Morna ‘Ser’

3 Vozes:

Um nuvem d’oirode passá na céu,

Mesmo assim nha coraçôn

Tem  pôque luz

Note banda  d’mar

Ainda um’t’uvi

Voz e voz na floresta

 

M’agora nô ta li

Pra sempr

Pa trás é temp

Q’passá

Nôs memória ta f’cá

É pa f’cá
Esse é ôt mar

É mar d’ilha

Q’ta bem fazê

Um nôv rume

Na nôs camim

 

Rotcha e vale construi nôs alma

Sangue misturôd fazê nôs corp

E bem na temp um flor d’vida

Aberte na som dum Morna-quente

 

Criôl ê um Ser

Ess munde ê um Ser

Na nôs raiz tud ága é pur,

Um árvore ta criá

Sempre pra cima

15-Final: Libertação, assunção do Crioulo

Soprano:

Sim nô ta livre sim

Ot Lua tem pa mostrá camin

Ser um oraçon capaz de dá sentid

A esse liberdad

 

Nha voz agora é uvid

Na tud ês ilha, enfim aligria

 

Ser dôs, ser más do qui dôs Ser

Ser más do qui munde ta pô na nôs mõn

 

Nô bá longe, nô bá longe

Eh um sonh ta p’di ôte sonh más grand

Criôl nô tem um destin

Lua Nova:

Tud gente uvi nha voz

Ele fui sempr cretcheu

Criôl!

Coro:

Nada um tem, num bote

Pa ôt ilha um ta bai!

Fim

…….

Palavras do compositor:

«Para além duma obra musical que fala de um período ‘mal aceite’ (a sistematização legal do tráfico de escravos africanos), é este o meu testemunho de homem livre, reprovando todas as formas de servidão e escravatura que por vezes subtilmente ainda permanece no mundo.

Também é, e sobretudo, a consciência da história do Arquipélago de Cabo-Verde, significativa história: mais de 400 anos sob o sistema da escravatura: suscita reflexão, coragem intelectual e mente aberta: a lei universal das causas e efeitos.

Quando o homem adere ao lucro e á avareza revestidos de uma ideologia religiosa-moral, comete quase sempre, em determinadas circunstâncias históricas, actos odiosos enraizados nos complexos de incompreensão, da crueldade e do racismo.

Neste mundo que tende a derivar para a intolerância, faço os meus votos que esta música induza sentimentos nobres e de esperança.»

     

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